Fertilidade do solo: A base para ganhos em produtividade na pecuária

Quem trabalha em qualquer atividade ligada diretamente com a terra já deve ter lido, assistido ou ouvido de algum técnico que a fertilidade do solo é a base para qualquer atividade ou exploração agropecuária eficiente. Mas tão comum como essa recomendação é o descaso com que muitos produtores tratam o solo sobre o qual exercem sua atividade.

 

É bem verdade que alguns ramos da agropecuária já perceberam que não existe almoço grátis. Em outras palavras, se você quer retirar produção, você tem que oferecer condições para que a planta produza. É o caso por exemplo das lavouras comercias de grãos, que de longe são as maiores consumidoras de fertilizantes e corretivos agrícolas. Parte do investimento feito por esses “empresários rurais” na correção e manutenção da fertilidade do solo se deve à resposta direta que esta ação traz ao seu bolso. Se no início de uma safra o produtor, por descuido ou despreparo, não faz as correções como deveria, no fim da mesma safra a baixa performance das lavouras, medida na colhedora, diz a ele que o “dever de casa” não foi feito corretamente.

 

Mas, e quando a colhedora não se trata de uma máquina e sim de um animal, e que o produto de interesse não é a produção forrageira em si, mas sim a carne ou o leite? Fica difícil estabelecer uma ligação direta entre o início da cadeia e o fim, principalmente pelo fato de que diversos outros fatores também influenciam na resposta animal como genética, ambiente e suplementação.

 

Três eram os principais problemas que existiam no início das explorações pecuárias no Brasil: animais pouco adaptados, popularmente chamados de pé-duro, falta de suplementação mineral e uso de materiais forrageiros pouco produtivos. O primeiro caso se resolveu com o ingresso de animais zebuínos, vindos da Índia, que apresentaram ótima adaptação ao nosso clima e sistema produtivo. O segundo ponto foi corrigido com a oferta de sal mineral no cocho, corrigindo assim as deficiências nutricionais dos pobres solos tropicais. O último fator teve uma contribuição significativa dos materiais forrageiros provenientes da África, sobretudo com o lançamento da B. decumbens no início dos anos 60.

 

Sem dúvida, a introdução das braquiárias foi um marco na evolução da produtividade da pecuária nacional, permitindo que as baixas taxas de lotação suportadas pelas gramíneas nativas se aproximassem da casa de 1 animal por ha, o que ainda predomina nos dias atuais. Contudo, os programas de melhoramento genético foram se desenvolvendo e passando a oferecer materiais com potencial produtivo cada vez maior. E hoje, a exemplo do que acontece com as culturas graníferas que já fazem uso de materiais híbridos há muitos anos, existem disponíveis no mercado forrageiras híbridas que se destacam pela excelente qualidade forrageira e potencial produtivo.

 

No entanto, pouco adianta o pecuarista ter uma máquina de produzir forragem nas mãos se o que falta é o combustível. Tomemos como exemplo o capim Mombaça, consagrado como um dos capins mais produtivos de uso comum. Dados da literatura apontam potencial produtivo para esse cultivar de até 40 toneladas de matéria seca (MS) por ha/ano. Adotemos como base um valor de 30 t de MS e um sistema eficiente de manejo da pastagem que consegue colher 70% do que foi produzido. Como resultado, temos um consumo de 21 t de MS por ano, capaz de sustentar na média do ano mais de 6 unidades animais (UA) por hectare. Os cálculos a seguir facilitam o entendimento dos números.

 

30 t MS produzida x 70% colheita = 21 t MS consumida

 

21 t MS consumida em 365 dias = 57 kg MS consumida por dia

 

57 kg MS dia / 9,5 kg de consumo por UA = 6 UAs/ha

 

Apesar do incrível número de 6 UAs por ha ser uma possibilidade real, sabemos que são pouquíssimas as fazendas que conseguem ostentar uma produtividade parecida. Sendo que a maioria das propriedades não chega a 2 UAs/ha.

Fica claro então, que não basta ter uma pastagem potencialmente produtiva estabelecida na área. Para que o potencial se converta em realidade, ela precisa ter as exigências básicas atendidas e, em linhas gerais, as exigências básicas de fertilidade dos solos tropicais a serem corrigidas são a acidez e os níveis de fósforo, que naturalmente são muito baixos nos solos brasileiros.

Para fins práticos, a EMRAPA sugere a divisão dos materiais forrageiros em três grupos de acordo com a exigência de fertilidade. Sendo eles:

  • Grupo 1 - Alta exigência: Mombaça, Tanzânia, Colonião, Tifton e Elefante
  • Grupo 2 - Média exigência: Marandu, Xaraés e Massai
  • Grupo 3 - Baixa exigência: Decumbens, Humidícola e Andropogon

Cada grupo tem uma exigência mínima de fertilidade para garantir o bom desempenho das forrageiras. Para as condições dos solos dos cerrados, essas exigências mínimas seriam de 12, 9 e 7 mg/dm3 de fósforo e 60%, 50% e 40% de saturação de bases no estabelecimento para os Grupos 1, 2 e 3, respectivamente.

Atendidas essas exigências, a planta forrageira tem as bases para expressar o seu potencial produtivo. A partir daí investimentos em outros nutrientes como nitrogênio e potássio devem ser realizados somente se o sistema produtivo adotado exigir e, principalmente, se houver perfeito domínio do manejo da forrageira. Como vimos na equação apresentada, o sucesso da alta produtividade está baseado não somente no aumento da produção forrageira, mas também na eficiência com que essa é aproveitada.

 

Figura 1. Pastagem pouco produtiva devido às deficiências de fertilidade e manejo.

 

 

Figura 2. Pastagem produtiva onde se nota o bom estado nutricional das plantas e manejo correto da altura.

 

 

Robson Mengatti

Engenheiro Agrônomo

Departamento Técnico - Barenbrug do Brasil

robson@barenbrug.com.br