Estratégias de manejo para o período de transição águas-seca

Autora: Samea Moraes Cabral, zootecnista e desenvolvedora tecnológica da Barenbrug do Brasil.
Data: 30/07/2019

 

O período de transição águas-seca é um dos momentos em que mais devemos nos preocupar com a oferta de alimento disponível na propriedade, pois é quando partimos de uma condição de grande disponibilidade de alimento – estação chuvosa –, para uma condição de escassez. Dentro da transição já temos redução dos índices pluviométricos, diminuição na produção de forragem e queda dos valores nutricionais da planta, culminando no início do período seco.

 

Não existe uma técnica específica para todos os sistemas de produção, em todas as regiões. De maneira geral quando falamos de transição águas-seca, temos que nos atentar ao planejamento alimentar da propriedade, para que esteja definida uma maneira de compensar a queda da produção de forragem. Um bom planejamento estratégico deve ser feito com pelo menos um ano de antecedência.

 

Um dos fatores primordiais a ser observado durante a transição águas-seca é o manejo das pastagens. Neste período deve-se proceder com o ajuste de carga, diminuindo-se a lotação das áreas utilizadas e, em determinadas situações, será preciso realizar a venda de animais e eliminar pelo menos uma categoria animal do rebanho. Além disso, as pastagens precisam ser manejadas com altura de pastejo sensivelmente mais elevadas, evitando que a planta tenha dificuldades no restabelecimento e sofra menos estresse.

 

O produtor pode optar por fazer o diferimento de pastagem, que consiste em selecionar determinada área e deixá-la separada por algum tempo, ficando em descanso, com o objetivo de ser vedada para ser utilizada durante a seca. Essa ação é feita ao final das chuvas ou durante todo o período chuvoso, dependendo da região. Normalmente a vedação se estende de 40 a 50 dias antes do final das chuvas.

 

Para tanto, devemos nos atentar que áreas destinadas à vedação que ficam em descanso por longos períodos, apresentam maior altura da forrageira, criando grande quantidade de massa favorecendo o acamamento ou tombamento da forragem no momento da entrada dos animais, gerando perdas de massa por pisoteio e diminuição do aproveitamento da massa acumulada, devido à dificuldade de apreensão da forragem por parte dos animais. O tempo de vedação tem relação direta com a qualidade da MS (matéria seca) da forragem, a área vedada terá boa disponibilidade de massa, porém com valor nutricional menor. O diferimento de pastagem é uma alternativa de baixo custo. Outro fator importante é a escolha da forrageira, pois nem todas são indicadas para esse manejo. Dentre as forrageiras adaptadas, temos cultivares do gênero Brachiaria, como: Marandu, Decumbens e Ruziziensis, além da Brachiaria Híbrida cultivar Mulato ll, do gênero Panicum como: Tanzânia e Massai, e do gênero Cynodon.

 

Outra estratégia a ser observada é a conservação da forragem na forma de silagem. Com a correta produção da silagem os animais terão um alimento volumoso de qualidade durante a seca, amenizando a estacionalidade da produção forrageira. Diversas forragens podem ser utilizadas no processo de ensilagem, como milho, milheto, sorgo forrageiro e granífero, além de algumas gramíneas tropicais. Dentre os métodos de conservação de forragem, o produtor pode optar ainda pela produção de fenos ou pré-secados.

 

Fenação consiste em propiciar a rápida desidratação da planta que está com 80 a 85% de umidade, para valores reduzidos a 10 a 15%. Diferentemente de pré-secados, que mantém a umidade entre 40 a 60%, em ambiente anaeróbico. Vale ressaltar que o valor nutritivo do produto, seja feno ou silagem pré-secada, é dependente da qualidade da planta colhida. De maneira geral quanto mais rápida e homogênea for a desidratação, mais chance a planta tem de conservar seus nutrientes.

 

Para a escolha da planta a ser usada neste tipo de manejo, é preferível forrageiras ou leguminosas com colmos finos, flexíveis e elevada relação folha:colmo. O produtor deve ficar atento ao ponto de corte, é necessário que seja feito quando a planta estiver com bom valor nutricional e com maior quantidade de folhas, ou seja, o corte deve ser iniciado antes do início da floração. No entanto, o período em que a planta está em pleno desenvolvimento coincide com a época chuvosa e isso pode ocasionar dificuldades climáticas durante o processo de produção. No caso de colheitas mais tardias, têm-se consequentemente diminuição do valor nutricional.

 

Após o corte a planta inicia o processo de desidratação, que é um dos principais fatores a ser considerado para estas tecnologias, e depende de fatores climáticos como: temperatura, umidade relativa do ar e radiação solar. Maior quantidade de folhas em relação a de colmos também favorece a rápida desidratação e qualidade do produto. As plantas cortadas devem ficar espalhadas no campo e expostas ao sol, lembrando que o material deve ser revolvido por pelo menos três vezes ao dia e ao final da tarde ser enleirado, sendo espalhado novamente no dia seguinte. A umidade da planta deve ser monitorada antes do recolhimento para armazenamento.

 

O material para produção de pré-secados deve ser recolhido com umidade média de 40 a 60% para ser enfardado e embalado em lona plástica resistente, de forma que favoreça a fermentação necessária. Enquanto o material para ser fenado permanece por mais tempo no campo, o recolhimento deve ser feito quando a forragem estiver com teor de umidade entre 10 a 15%. Tanto para o feno quanto para pré-secados, os mesmos processos e equipamentos podem ser utilizados, exceto para embalar a silagem pré-secada que necessita de equipamento específico. Independente da técnica escolhida, alguns cuidados como: escolha da planta, momento da colheita, secagem e recolhimento do material para armazenamento são fundamentais.

 

Alguns produtores que possuem produção de grãos na propriedade têm optado por fazer integração lavoura-pecuária (ILP). Uma das integrações mais utilizadas tem sido o plantio da soja na primeira safra e após sua colheita, segue-se da segunda safra (safrinha) de milho em consórcio com alguma gramínea tropical perene. Após a colheita do milho, podemos obter uma pastagem de qualidade, suprindo a deficiência de falta de alimento, além do que a integração promove outros benefícios como aumento da produtividade de grãos e melhora nos atributos físicos e químicos do solo.

 

Em alguns casos a ILP é utilizada com o objetivo de produzir massa verde para ser ensilada e não com o interesse de grãos para comercialização. Dessa forma o milho ou sorgo forrageiro é plantado em consórcio com alguma gramínea tropical perene e, nesse caso, os dois materiais são colhidos ao mesmo tempo, formando a massa a ser ensilada, ficando disponível uma área formada de pasto pela gramínea usada na integração, e que será utilizada para pastejo posteriormente. Independente da estratégia escolhida para o período de transição águas-seca o planejamento é a principal ferramenta a ser utilizada.